14 de mar de 2016

Resenha: Objetos cortantes - Gillian Flynn


Peguei esse ebook numa promoção da Amazon, na Black Friday, e não demorou tanto tempo para que ele me chamasse e pedisse para ser lido.

Sentia falta de ler um bom suspense, com toques de horror e quando me deparei com Objetos cortantes (Editora Intrínseca, 256 páginas, R$34,90) foi incrível! A obra me chamou, quase implorou para ser lida. E um livro que me chama que não pode ser deixado para depois, precisa ser lido todo logo.

Essa é a história de Camille Preaker, uma jovem que passou por muitos problemas durante a sua vida, até que é internada num hospital psiquiátrico, e quando sai de lá consegue trabalhar num pequeno jornal em Chicago.

Quando seu chefe percebe que na cidade natal de Camille, Wind Gap, casos estranhos de assassinato de uma menina e sumiço de outra estão acontecendo, ele a manda para lá para cobrir o caso, pois acredita que uma pessoa local será melhor para apurar os fatos.

Camille não quer ir, sua cidade traz muitas lembranças ruins. Acompanhamos essa tristeza, essa dor causada pelo passado. As marcas que esse passado deixou nela e às vezes se pronunciam, sempre presentes, como uma entidade. E descobrimos muitas coisas ruins que a própria personagem causa.

É uma história doentia, que marca e a expectativa do final traz ao leitor uma série de pensamentos fortes, ruins. Uma agonia de saber que o ser humano é tão ruim, não apenas, infelizmente, num romance se suspense.

A forma como a mãe trata a filha que há tempos não vê me trousse asco. E há a impotência de Camille diante dessa pessoa horrorosa que visivelmente faz mal a ela. Adora é uma personagem muito bem construída para irritar.

A meia-irmã também é terrível, fria e dissimulada. Apenas o padrasto parece não se importar com nada enquanto lê seu jornal.

A sociedade é tão perfeita, todos são tão fantásticos – aquela magia americana da família correta –, que a ironia é a podridão revelada depois de algumas bebidas e da vontade de mostrar que sabe mais do que os outros, da vida dos outros.

Recomendo a leitura desse livro. E que o leitor tenha nervos de ferro, pois é tenso do início ao fim.

“Em inglês a depressão é chamada de blues, mas eu ficaria feliz em despertar para um mundo azulado. Para mim a depressão é amarelo-urina. Quilômetros exaustos de mijo fraco.”

Interessante como um primeiro livro lido já nos transforma em fãs de um autor. Gillian Flynn (1971) também é autora de Garota exemplar e Lugares escuros, ambos viraram filmes.

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ASIN: B00RLWG4ZU
Ano: 2006
Páginas: 256
Título original: Sharp Objects
Editora: Intrínseca
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17 de fev de 2016

Resenha: A mulher de preto – Susan Hill


A mulher de preto é um desses livros que envolvem e caminha lentamente, sem o exagero das histórias que querem assustar por assustar. Aliás, esse clima de suspense poucos conseguem.

O livro é narrado por Arthur Kipps, na verdade ele a escreve porque se sentiu impelido a contar tudo o que o atormenta há muito tempo. Esse segredo horrível que guarda só para si e que o consome todos os dias desde sua juventude.

Começa quando Kipps, advogado, vislumbra uma possível promoção ao ser enviado para tratar dos documentos da senhora Alice Drablow, que acabara de morrer. No entanto, quando chega à cidade e comenta o motivo de sua visita, todos parecem se sentir incomodados. E ninguém deseja falar sobre o assunto. Muito menos da mulher de preto.

Kipps se vê sozinho ali. Somente conta com ajuda para ir e voltar da Casa do Brejo da Enguia, com sua atmosfera lúgubre, o lugar que todos evitam.

O jovem então, como é comum dos mocinhos, pensa que tudo não passa de crendice popular e decide desvendar o motivo de tanto medo no povoado. No entanto, a mente humana nunca está preparada para o surreal.
Mas devo confessar que naquela época eu tinha o senso de superioridade dos londrinos, a crença malformada de que os homens do campo, e particularmente aqueles dos cantos remotos de nossa ilha, eram mais supersticiosos, mais crédulos, mais lerdos, menos sofisticados e mais primitivos do que nós, cosmopolitas.

A mulher de preto (The woman in black, Editora Record, 208 páginas) foi um desses livros que me chamam, pois eu não tinha intenção em ler tão logo. Algo me afastava dele. Mas, um dia, procurando uma leitura um pouco mais sombria, a obra pediu para ser lida (através do programa Kindle Unlimited, da Amazon). Foi uma surpresa incrível, ainda mais por saber que é de 1983 e nunca tinha ouvido falar do livro. Provavelmente seu sucesso aqui se deve ao filme homônimo lançado em 2012, com Daniel Radcliffe – o eterno Harry Potter – como Arthur Kipps, dirigido por James Watkins.

Há uma segunda parte escrita em 2013 pelo autor Martyn Waites, que também virou filme, A mulher de preto 2 – Anjo da Morte (Woman in black: Angel of Death, Editora Record, 304 páginas). Não tenho muita vontade de ler quando outra pessoa continua a história de outra. Ainda estou em dúvida, apesar de ter lido resenhas positivas.

Bem, o único problema que encontrei durante a leitura de A mulher de preto foi “recolocou-os novamente”, “pequena saleta”, coisas que me incomodaram bastante.

Essas histórias, como a de A mulher de preto, são um tanto raras hoje. Muitos autores (de livros e filmes) desejam o susto imediato, o medo intenso e em tempo integral. Nada que chega devagar e se aloja sem que o espectador perceba logo, que não o faça dormir por dias, pensado em: será que vemos tudo o que está ao nosso redor? Será que conseguimos bloquear o que transcende aquilo que conhecemos como realidade? O que nos espreita quando fechamos os olhos para dormir?

Susan Hill (1942), uma apaixonada por livros de terror, conseguiu criar uma ótima história de fantasmas como as clássicas, do absurdo que povoa nossa mente, e nos faz olhar duas vezes para os lados antes de dormir e querer cobrir os pés, pois parece que tudo está ali, olhando num canto sombrio.

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ASIN: B00A6OF59G
Ano: 2012
Páginas: 208
Tradutor: Flávio Souto Maior
Título original: The woman in black
Editora: Record
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Este ebook foi emprestado no programa Kindle Unlimited, da Amazon.

11 de fev de 2016

Leituras de janeiro/2016

Foi um ótimo mês de leituras. E vários livros muito bons!
  1. O cachorro e seu menino - Eva Ibbotson
  2. Agura Trat - Roald Dahl
  3. O segredo de Leninha - Roald Dahl
  4. Dias de chuva - Carolina Mancini (ainda inédito. Lançamento em breve)*
  5. No mundo da Luna - Carina Rissi
  6. O Edifício - Susy Ramone (ainda inédito. Lançamento em breve)*
  7. Objetos cortantes - Gillian Flynn
  8. Quando ela acordou - Hillary Jordan
  9. 1 milhão de motivos para casar - Gemma Townley

Os melhores foram:
1. O cachorro e seu menino, da fantástica Eva Ibbotson
Um livro delicado, que fala d amor de um menino pelo cachorro alugado. Muito sensível. Adoro a forma como Eva escreve. Sou sua fã. Esse é o último livro que ela escreveu.
2. Objetos cortantes, de Gillian Flynn, autora de Garota Exemplar, que foi filmado.
Uma história forte e dura. Que traz o passado da personagem. E ela precisa sofrer tudo de novo para escrever um matéria para o jornal que trabalha. Foi um livro que me chamou e adorei ler. Bem diferente do que estava lendo antes.

Leia também a resenha de  No mundo da Luna, de Carina Rissi.
* Livros que, por ética, não entram na escolha dos melhores do mês.

Resenha: Luxo & crime - Angela Klinke

Imagino que o lado da moda de luxo seja um tanto podre, porque são pessoas ricas querendo ser melhores que as outras, querendo exclusividade em cada item. Penso numa luta como animais ferozes, que brigam pelo espaço, para ser o líder do clã, mas toda a peleja acontecendo por dentro, pois tudo deve ser tão discreto, apenas tratado com olhares e palavras ácidas de forma subliminar, ali mergulhadas entre uma frase e um doce elogio.

Que se digladiem essas feras dotadas apenas do bom gosto duvidoso, externo.

Que briguem pela bolsa exclusiva, pelo sapato vermelho. Que, como diz o ditado, morram abraçadas, pois se merecem.

Angela Klinke traz sua experiência de 20 anos como jornalista, trabalhando de diversos assuntos. E o resultado é um livro com humor e muita crítica.

O livro já começa com ação. As donas de uma loja de luxo sendo presas.

E o rico pai de Lulu um dia se cansa da futilidade da filha e a obriga a arranjar um emprego de jornalista na revista Cenários.

“Ela caminhava para ser mais uma dessas jovens que passavam metade do dia na internet se vangloriando das compras que fez na outra metade. Dizia que seu investimento em peças de luxo era um trabalho jornalístico.”

Essa frase me lembra dessas blogueiras que compram, compram e compram produtos de beleza, roupas, e exibem para um monte de meninas sedentas pelo que a outra usa. Não importa se é bom, contanto que se pague para divulgar e que se tenha mentes para corromper e induzir à compra desnecessária.

A Blogueira Shame mostrou durante alguns anos esse lado podre do reino das blogueiras de moda brasileiras. Eu acompanhava o blog, Shame on you, blogueira, e ria muito, intrigada em saber como as seguidoras acreditavam – acreditam – no que são ditos nesses sites. Aliás, se não me engano, foi no Shame on you, blogueira que fiquei sabendo do livro Luxo & crime (Editora Leya, 192 páginas), além de Gomorra (Editora Bertrand Brasil, 350 páginas).

Enfim, Lulu – Ludmila – cede à pressão do pai e vai trabalhar com Ernesto, um jornalista premiado. E a menina mimada vai justamente trabalhar no caso da Loja, que está sendo investigada por fraudes. 

A Loja – e eu adorei o nome – trabalha com produtos de luxo, promete trazer de fora a exclusividade às suas clientes. E sinceramente, eu, que uso na maior parte do tempo calças pretas e camisetas com estampas de bandas de rock, filmes e livros, só imagino como devem ser essas pessoas que não se importam em pagar horrores por algo que descartaram na próxima coleção. Mas, claro, eu não sou um parâmetro muito bom, nem pretendo.

“– Ludmila, você já leu Gomorra?  
Era claro que não. Nem sabia do que se tratava. Já tinha estado em Milão, se esbaldando em compras por lá, mas não leu Gomorra. O autor, Roberto Saviano, começou ele, faz um retrato nada elegante do processo de produção e muitas grifes de lux na Itália. Na periferia de Nápoles, a máfia financiava a mão de obra de qualidade, mas barata, que trabalhava em condições semelhantes aos bolivianos nas facções de costura do Brasil.”

Angela Klinke não mede palavras para falar desse mundo. Ela cita a falecida Daslu, o paraíso dos "rycos" – ou templo do luxo, como era conhecida –, mas que desabou em meio a escândalos de crimes financeiros. 

Luxo & crime traz personagens interessantes, desde a simples Dulcecleide e suas bolsas falsificadas, até a “nata” da sociedade. E está tudo interligado.

É uma leitura muito rápida e divertida. A linguagem simples, que pode atingir qualquer público e mostrar as teias que envolvem o mundo, não só o da moda.

“Como disse uma vez o autor Manoel Carlos, é inevitável fazer uma novela baseada na realidade porque ninguém acreditaria. Já a ficção tem de fazer sentido”, cita a autora.


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ASIN: B00AHEHJQ2
Ano: 2012
Páginas: 192
Editora: Leya
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Este ebook foi emprestado no programa Kindle Unlimited, da Amazon.

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